domingo, 25 de janeiro de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Por um momento, ele debruça-se do convés, sente o frio que vem do mar, do lado oposto à cidade que não quer ver ainda. Daqui a duas horas, dissera a vozinha de gaze do imediato aos microfones de bordo, o navio atracará na Gare Marítima de Alcântara. <<Tudo tão perto>>, pensa, <<tão na distância de um grito, e afinal para que serão precisas ainda duas longas horas de mar?>> Não conhece os ritos, as demoras que tornam extenuantes as navegações, nem as suas atracagens ao cais da chegada. Uma lentidão até certo ponto litúrgica, das que exasperam até a paciência dos santos. E, contudo, não experimenta nenhum anseio quanto ao momento que o papá, a mamã e Patrícia lhe acenarão de longe, descobrindo-o perdido entre as fardas mil dos batalhões e das companhias independentes. Não propriamente um número rigoroso de homens vestidos com suas muito velhas fardas, mas sim o espírito de quantos haviam somado anos, noites e dias nas suas três frentes de guerra. Em breve seriam talvez perto de um milhão, mas nunca ao certo o diria ninguém: estavam em todas as famílias e casas portuguesas, guardando álbuns de fotografias em cuja capa se lia <<ao serviço da pátria>> por baixo da gravura em relevo de uma sentinela alerta - a arma como que aperreada, os olhos fitos no seu ponto de mira; estavam vivos e mortos, mas todos calados, sem vontade de contar histórias e tragédias, e crimes que assustariam mulheres e crianças. Pior do que tudo, fingiam-se curados de uma dor que entrara neles para nunca mais deixar de doer, e à qual entregavam culpas, vergonhas, desgraças tais e tantas que não bastará ter duas vidas para expiar o castigo, cumprir toda a penitência e todo o remorso desse pecado.

<<O estranho pormenor da minha geração?>>, pensa João Alberto. O facto de ser única, perdida e solitária entre todas as demais - num país pequeno, com forma de urna e sem memória de nada. Onde nem mesmo as vicissitudes mais monstruosas têm qualquer importância. A Europa sabe de cor toda a música dos Beatles. Ouvira, em transe, o pânico provocado pelos bombardeiros B-52 sobre as lezírias do Vietname; vivera o sonho provisório dos hippies e o levantamento das novas comunas do Maio 68 - mas essa mesma Europa ignorava por completo a fatalidade de um destino estritamente português. Ri-se dos seus emigrantes avaros e suplicantes, tolera os exilados, os refratários, os desertores - mas mantém-se cega como a toupeira, sem suspeitar que o tempo dessa geração portuguesa é também o vinho mortal, a nuvem do seu próprio e inevitável crepúsculo. (...)"

A nuvem no olhar
- O tríptico dos barcos
João de Melo
D. Quixote (2025) 

sábado, 24 de janeiro de 2026

24 Janeiro

Apenas mais um. Divulgar quantos não se justifica, porque cada um tem "apenas" os que aparenta.

Contado ninguém acredita!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Inverno ou premonição?

O receio de um Verão sem praia da Foz já se perspectiva há algum tempo. A depressão Ingrid, em vez de irradiar simpatia e beleza como a sua homónima sueca, parece disposta a acabar com o resto ou, pelo menos, a deixar-nos ainda mais preocupados.

A ver vamos ...



terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Palavras bonitas

DEZ RÉIS DE ESPERANÇA

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.

Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto, 
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Futuro

Se fosse uma final de uma qualquer competição de futebol, dir-se-ia:

- Há um favorito, mas nunca se sabe. É só um jogo e pode haver surpresas.

No dia 8 de Fevereiro de 2026 não acontecerá um jogo de futebol. Mas pode haver surpresas!

Passaram já mais de 50 anos desse "dia inicial inteiro e limpo" em que fiz 22 anos, alimentando a esperança de uma sociedade nova, com liberdade e possibilidade de todos subirem a escada, independentemente da origem social, cor ou qualquer outra, sem polícia do pensamento nem mandantes sem autoridade.

Tudo isso está na corda bamba. Mas tenho esperança que o bom senso prevaleça na maioria das pessoas e que quem grita serem precisos três "rapa-tachos" continue a dizer as bacoradas que quiser, mas não adquira direito a um "mocho" quanto mais a uma cadeira de poder.

É seguro que apenas SEGURO pode ser Presidente de todos os portugueses!

domingo, 18 de janeiro de 2026

Votos

Quase a acabar o Domingo das decisões importantes!

Dos catorze candidatos inscritos no boletins de voto, "apenas" onze são oficialmente aceites, por as tipografias terem imenso trabalho e não conseguirem imprimir os "papelinhos" apenas depois da decisão do Tribunal Constitucional. Paciência ... os eleitores saberão escolher bem, por a grande maioria já pertencer a uma geração muito letrada!

É seguro que, dos onze, dois vão à final ... se não houver surpresas de última hora.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

Amanhã é dia de reflexão, não sendo legalmente possível falar sobre o acto eleitoral que decorrerá Domingo, dia 18. Por isso e por ser Dia de Santo Antão, deve ser, entre uns chouriços na brasa, umas entremeadas e umas febras regadas com um bom tinto, dedicado à colocação de todas as cartas na mesa, à arrumação das ideias e ao vislumbre, difícil, de qual seja a melhor solução. Ou talvez, ainda mais clarinho, aquilo que nunca será solução e deve ser deixado à "meia dúzia" de tontos que acham ser fundamental voltar ao antanho.

Para ajudar a reflectir, a opinião de quem escreve sobre o mundo miserável que se mantém e comunga da opinião de que "para trás, mija a burra!".

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"(...) Todas as noites, Obinze saía do trabalho coberto por uma poeira química branca. Partículas arenosas alojavam-se-lhe nos ouvidos. Tentava não inspirar demasiado fundo enquanto limpava, preocupado com os perigos que flutuavam no ar, até o gerente lhe dizer que ia ser despedido devido a uma redução de pessoal. O emprego seguinte foi uma substituição temporária numa empresa que fazia entregas de cozinhas, semana após semana sentado ao lado de condutores brancos que lhe chamavam <<moço>>, estaleiros de construção civil cheios de ruídos e de capacetes, subir muitos degraus a carregar pranchas de madeira, sem ajuda e sem reconhecimento. No silêncio em que conduziam e no tom em que diziam <<moço!>> Obinze sentia a inimizade dos condutores. Uma vez, quando tropeçou e caiu de joelhos, uma queda tão forte que foi a coxear para o camião, o condutor disse aos outros no armazém: <<O joelho dele mais preto não pode ficar!>> Riram-se. A hostilidade deles incomodava-o, mas só ligeiramente; o que importava era que ganhava quatro libras à hora, mais com as horas extra, e quando foi mandado para um novo armazém de entregas em West Thurrock, sentiu-se preocupado por poder deixar de ter oportunidades de trabalhar horas extra.

O chefe do novo armazém tinha o aspeto do típico inglês que Obinze imaginava, um homem alto e enxuto, com o cabelo ruivo e olhos azuis. Mas era um homem sorridente e, na imaginação de Obinze, os homens ingleses não eram sorridentes. Chamava-se Roy Snell. Deu um vigoroso aperto de mão a Obinze.

- Então, Vincent, és de África? - perguntou, enquanto conduzia Obinze numa visita ao armazém, que era do tamanho de um campo de futebol, muito maior do que o anterior, e estava cheio de camiões a serem carregados, de caixas de cartão espalmadas a serem dobradas e metidas num buraco fundo, de homens a conversarem.

- Sou! (...)"

Americanah
Chimamanda Ngozi Adichie
D. Quixote (2025)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Contado ... ninguém acredita

Só faltava esta!

Um candidato, apenas e só um candidato embora se arvore em representante de Deus na terra, resolveu "fardar-se" de militar, antecipando o cargo de Comandante Supremo das Forças Armadas que lhe estará reservado ... se for eleito. Nessa figurinha, debitou alarvidades às massas sedentas de o ouvirem e que lhe acenaram a cabeça como o bonequinho chinês.

Para a palhaçada (desculpem-me os palhaços) ser completa, vistosa e apelativa, faltou-lhe colocar o quico na pinha, a G3 no ombro e as botas, antigas, nos presuntos. Ficaria, assim, em excelentes condições para aprender a marchar, com uma hora de "ordem unida". De seguida, rastejaria por debaixo do arame farpado, faria uma corridinha no pórtico e um salto na paliçada, sempre com a G3 nas mãos, no regaço ou a tiracolo. Para terminar, atravessaria a manilha de esgoto, de preferência cheia, garantindo que a G3 não se sujaria. 

Chegava ... para primeiro dia. Outros se seguiriam, durante três meses, para aprender a ter maneiras.

E parece que isto vai à segunda volta!

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Pasmaceira

Esforço-me e não consigo!

Sinais dos tempos, aos quais não é fácil habituar quem já viveu muito, esperou bastante, ambicionou sempre melhor e, agora, tem a convicção de que isto não vai dar certo. Oxalá esteja equivocado!

A campanha para as presidenciais faz lembrar aquele dito que surge sempre que, num colóquio de anedotas, estas deslizam para uma linguagem mais desbragada:

- A conversa está a descer de nível mas a subir de interesse!

Pensando melhor, é verdade que desce de nível todos os dias. Todavia, interesse, não tem nenhum!

Domingo, todos(?) caminharemos para as salas onde se colocará a cruz da resposta de cada um, como nos "testes americanos" de agora. Saberão a matéria? Os "professores" foram claros nas explicações?

Não descortino nada de jeito. Defeito meu ...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Expresso

Lembro-me bem do número 1!

Era um jovem, em vésperas de ingressar no serviço militar obrigatório e, naquele sábado de 1973 (6 de Janeiro) cumpri o ritual de mais um dia de trabalho - a semana tinha seis dias. Fui ao Banco Lisboa & Açores (os bancos estavam abertos ao sábado de manhã), ali na Rua das Montras, cumprimentei o Sr. Mendonça, entreguei os cheques (o Multibanco nem em sonhos) e recebi o dinheiro necessário ao pagamento das jornas, com variedade de notas e moedas para que fosse possível pagar certinho o "enorme" salário semanal a cada um dos jornaleiros da quinta.

Não recordo se estava frio ou chuva. Nesse tempo, as condições climatéricas não incomodavam nem impediam nada. Olha agora ...

Depois do banco e antes do regresso ao escritório, passei pela Jornália, pesquisei no fundo do bolso, retirei a moeda de 5$00 e comprei aquele jornal novo, enorme, com uma manchete bem sugestiva e premonitória: "63% dos portugueses nunca votaram". Eu era um deles ...

O hábito, ou o vício, nunca mais se perdeu. Hoje, como sempre, comprei o exemplar desta semana, mantendo-me fiel ao papel - velho teimoso!

O jornal tem muitas diferenças: custou 5,50 € (em 1973 seriam mais de 1.100 escudos ou, utilizando a linguagem da época, mais de um conto e cem); as páginas já não são tão grandes, mas o peso é bastante superior; vem num saco de papel, que dá muito jeito, e a tinta já não suja as mãos; nesta semana (e nas próximas três) traz uma antologia da Lírica de Camões, fazendo jus às preocupações culturais que sempre teve e mantém.

E, na página 3, lá surge mais um brilhante "retrato" saído das mãos de António: